Fragmentos

Elas esperavam a chuva sentadas no degrau. Uma olha para o chão seco. Pó. A outra olha para o céu azul. Vento. Uma veste branco. A outra cantarola uma canção. Da caixa. Caixa aberta sobre a mesa lateral. Música e pó. Brisa e suor.
Lembrei de uma vez que juntas fomos ao mercado. Era sábado. Sol. Brisa e pó. Música da caixa na memória. Lembrava da música e do pó. Calor. Suor e sede. Pouco chovia. Não existiam nuvens por ali. Era noite ou céu azul. Música cantarolada. Suor. Estranhez.
Mercado na tarde de sábado. João assoviava a música. Da caixa da mesa. Nestor guardava as garrafas de vidro. Refrigerante no vidro. Fim de semana. Suor e calor. Limpava o suor e nenhuma nuvem no céu.
Nunca.
Ela lembrou do dia das estrelas. Deitadas no chão, sobre uma toalha xadrez, vermelha e branca, suadas. Olhávamos para o escuro da noite, preto pintado de branco. Umas brilham mais que outras. Estrelas brilham muito. O suor. Brilha. Rosto do Nestor. Brilho. Fragmentos de memória. Estrelas brilham muito. Sol.
A folha voou nos meus olhos. A outra não viu. Sentadas esperávamos. Alguma notícia. Espera.
Ampulhetas. Tempo e areia. Pó e suor. Céu azul. Conversa: escuta o barulho do vento. O vento suava em meus ouvidos. Era uma folha grande, seca. Voou. Em mim. Meus olhos ardiam do pó. Suor e sal.
No olho. Caixa de música. Bailarina folha. Voa e baila. Música na mesa lateral.
As estrelas tinham desenhos lindos no céu. Sem fim, tão escuro. Dentro. De mim.
Suor. A música da caixa ecoou no ar. Ampulheta. A folha acompanhou. A outra não estava ali. Não hoje, nem agora. Uma depois da outra. Outra sendo uma. Só e Pó.
João cantarolava a música. Garrafas suavam frio e calor. Umidade. Areia.
As gotas escorriam pelo seu rosto. Mercado. Eu observo e ela cantarola a música.
Sem nuvens.
Nestor não estava mais lá, nem aqui.
Nestor e a outra se foram. Iam. Ampulheta. Voltar.
A música ficou.
A chuva.
Folha seca.
Foi.


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